Textos


 

O inspetor Gomes desceu da viatura com dificuldade. Ganhara alguns quilos nas férias. A manhã começava e algumas pessoas, com sacos de pão nas mãos, à porta da padaria, observavam a cena. O corpo caído na calçada, com um único e certeiro golpe de faca nas costas, prenunciava um drama.

Mas nada tão sério que impedisse um senhor idoso, com cara e voz rabugenta, de dizer em alto e bom som:

- Ainda bem que deram um jeito neste desgraçado!

Gomes cumprimentou os policiais militares que isolavam a área e se aproximou do agente Fontana que estava ao lado do corpo com o pessoal da perícia.

- O que houve?

Parecia uma pergunta estúpida, porque o corpo respondia por si só. Mas um corpo esfaqueado ou crivado de balas, apenas, não é resposta para nada. É preciso investigar, olhar detrás das cortinas, devassar o silêncio sempre presente diante da morte.

- O morto é Joelson Cunha, conhecido como Tambor’. Muitas passagens. Furto, assalto a mão armada, tráfico. Pegou treze anos de cadeia, mas foi solto depois de sete, por bom comportamento. – Fontana fez uma careta – Antes tivesse ficado na jaula. Seria melhor pra ele.

Os curiosos não se afastavam e Gomes chegou a ouvir risadas. Era assim: alguém morto no meio da rua, podia, às vezes, ser motivo de alívio e alegria. Lembrou de um documentário no qual um leopardo saltava, com graça e agilidade, sobre um antílope, dando ao cineasta a oportunidade de um registro espetacular.

-O que houve? – insistiu.

-O dono da padaria ali em frente quando chegou, às quatro da manhã, viu o corpo. Chamou o 190. Depois chamaram a gente.

- Alguém viu ou escutou algo?

Eram perguntas rotineiras, cansativas. Mas era o começo. Fontana disse que não. Gomes suspirou. Um longo caminho à frente e ele se sentia cansado para dar o primeiro passo.

Olhou em volta e notou que, quando fixou o olhar nos clientes da padaria, estes se dispersaram rápidos, temendo consequências. Havia um silêncio de mármore que não cederia fácil. As coisas eram assim no Capão Redondo. Mas sabia que, independentemente de quem fosse a vítima, era preciso seguir. O contrário seria dar de ombros e deixar o caos engolir o que ainda não tinha engolido.

Andou em volta da área delimitada pelas faixas de isolamento, conversou com o pessoal da perícia, com o sargento da PM, sem desviar o olhar de ‘Tambor’. Depois observou o ferimento, a mancha de sangue nas costas da camiseta com estampa de Nossa Senhora Aparecida e o rasgo estreito feito pela faca.

Um só golpe. O assassino era perito em facas ou tivera sorte.

O rabecão chegou e levou o corpo. Começavam os “trâmites legais”. Gomes pensou em tomar um café na padaria. No fundo, a padaria tinha quatro mesas de fórmica preta com cadeiras de plástico. Gomes pediu um café duplo, Fontana um pingado e um pão na chapa.

- Isso aí vai dar em nada. Queima de arquivo. Aqui o que não falta são gangues, uma querendo ver a caveira da outra.

Fontana tinha a segurança de quem chegou à conclusão de que certos esforços são inúteis.

- No entanto... – disse Gomes como para si mesmo.

- No entanto o quê? – inquietou-se Fontana.

- Não parece crime de gangue. – Gomes achou por bem explicar – Um só golpe. Uma facada...

- Vai ver queriam economizar munição...

Às vezes era difícil vencer a teimosia não só de Fontana, mas a de outros policiais.

Gomes notou uma moça de uns vinte e poucos anos encostada nas prateleiras de pães e biscoitos, olhando timidamente para eles. Era pequena, com um rosto magro e agradável, cabelos curtos e aloirados, olhos de um castanho melancólico. No braço direito, uma tatuagem de um signo do zodíaco, peixes talvez.

- Deseja algo, moça? – perguntou Gomes.

Ela se assustou. Fontana se voltou e olhou-a sem interesse. Depois de instantes, ela se aproximou da mesa, a passos miúdos, como se o corpo lhe pesasse toneladas.

- Meu nome é Elisa ... eu... o senhor... delegado... é quem... – ela gaguejava, angustiada.

-Inspetor Godofredo Gomes. Este é o agente Fontana. Sente-se...

Ela se sentou, encolhendo-se na cadeira como se sentisse frio.

- É o senhor que vai cuidar do crime... quero dizer... do assassinato de “Tambor”?

A voz era triste e envergonhada. Gomes a contemplou e sentiu que ela poderia ser a primeira voz a fazer sentido naquele emaranhado de silêncios. Porque, sim, ao contrário dos outros, “Tambor” significava algo para ela.

- Quer um café?

A moça abriu os olhos, espantada. Não disse nada, só assentiu com a cabeça. Gomes pediu o café, enquanto Fontana molhava um pedaço de pão no pingado fumegante.

- Então, Elisa... Você conhecia “Tambor”?

A pergunta era retórica. Àquela altura ele sabia que ela o conhecia. Caso contrário, não estaria ali, entre estranhos, fazendo perguntas delicadas. Curiosidade tem limites.

- A gente ia se casar no fim do mês... – a voz de Elisa soou como se contasse um sonho sem sentido que a fizera despertar desnorteada. – E agora...

-Você conhecia bem seu noivo? – Fontana cortou sem condescendência – Sabia que ele cumpriu pena por um bom tempo? Furto, tráfico...

Gomes o interrompeu com um gesto de mão. Caiu entre eles um silêncio de espera. Elisa, apesar de tudo, prosseguiu, as mãos nervosas sobre a mesa, o olhar perdido.

-Ele não era mais o mesmo. Queria levar uma vida decente. Isso é possível, não é?

Olhou para os dois, esperando confirmação.

-Sim, é possível. – respondeu Gomes com segurança.

Elisa recobrou o ânimo.

- Depois da prisão, ele mudou. A gente se conheceu na igreja e começamos a namorar... meus pais não aprovavam... – respirou fundo e seguiu, com mais convicção. – Mas eu não sou idiota. Acreditei nele. Ele arrumou um trabalho, fazia entregas por aplicativo. Alugou um quarto aqui perto e vim morar com ele, faz uns dois meses. Então...

- Decidiram se casar. – disse Gomes, não perguntando, mas afirmando.

Elisa confirmou, os olhos molhados e reluzentes pelas lágrimas.

- Me diz uma coisa: por quê chamavam ele de “Tambor”? – perguntou Fontana, em tom mais gentil.

- Era um apelido antigo. Ele tocava tambor na banda da escola. – Enxugou os olhos com um guardanapo. – Ele era tão bom para mim. Agora...

O vazio depois daquela palavra era imenso. Não havia como preenchê-lo ou achar alternativas.

- Seu noivo tinha inimigos? Sabe se ele sofreu ameaças? – perguntou Gomes.

Elisa estreitou os olhos, olhou para os próprios joelhos, entrelaçou as mãos. Fazia um esforço para lembrar, sobretudo se esforçava para não deixar escapar nada.

- De uns dias para cá ele andava angustiado. Perguntei o que era, mas ele não disse. Aí ontem ele chegou com um envelope na mão, muito agitado, e me disse que agora tudo ia dar certo. Que a gente ia casar e se mudar pra Paraíba. Que um amigo chamou ele pra trabalhar num mercadinho. Falou até que tinha pedido uma vaga para mim. Estava feliz, entende?

- E o que tinha no envelope?

Elisa empalideceu. Dava a impressão de que, ao responder, iriam prendê-la. Só depois de instantes, quando Gomes achou que ela ia sair correndo, ela respondeu, a voz baixa e constrangida.

-Não devia ter feito isso, mas... depois que ele pôs o envelope no armário e saiu pra fazer entregas, era mais ou menos na hora do almoço, eu fui lá e...

- O que tinha no envelope? - Gomes se sentia relaxado. Percebia o fio da meada e tentava segurá-lo.

- Dinheiro. Muito dinheiro. Não sei quanto, porque não contei, mas devia ter uns dez mil reais. Pode não ser uma fortuna, mas pra nós...

- E mesmo assim, você ainda bota mão no fogo por ele? – insistiu Fontana espantado.

- Ele não fez nada errado. Não roubou nem nada. Nem arma ele tinha. A gente só queria se casar, ir embora e ser feliz.

Elisa voltou a chorar baixinho. Bebeu um pouco do café. Gomes a esperou recuperar o folego.

- Você comentou com ele sobre o dinheiro?

- Não, senhor! O que ele ia pensar? De noite ele chegou, tomou banho, trocou de roupa e quando já era mais de dez horas, pegou o envelope no armário e disse que ia sair, mas que não ia demorar. Estava feliz, sabe, radiante mesmo. Ele me beijou – tocou na bochecha com uma mão trêmula, o último beijo vibrando na pele pálida e úmida pelas lágrimas – e me disse que agora ele podia viver em paz. Que ia fazer justiça.

- Fazer justiça? Foi isso o que ele disse? – Gomes se inclinou atento.

Elisa confirmou. Gomes pediu outro café. Construía, em silêncio, a próxima pergunta, ensaiava o passo seguinte.

- E o que você entendeu? Se é que entendeu algo... – lançou Gomes como um pescador que estica a linha, esperando a feliz fisgada.

Esperava hesitação, confusão ou que Elisa dissesse não sei. Mas não foi o que aconteceu.

- “Tambor” falava sempre de um amigo que foi preso com ele. Dizia que esse outro era inocente. Que deu o azar de estar junto com ele e outro parceiro quando assaltaram um posto de gasolina nos Jardins. Mesmo assim o coitado foi preso. Então, quando ele falou que ia fazer justiça...

- Você sabe quem é esse tal amigo? Nome, endereço? – perguntou Fontana, interessado.

- O nome não sei. Mas o endereço... não tenho certeza...

- Pode falar. – Tranquilizou-a Gomes.

- Faz uns dias a gente estava andando quando passamos na frente de uma casa que fica perto daqui. Ele parou e disse que ali morava alguém com quem ele tinha uma dívida. Cheguei até a perguntar quanto ele devia, quero dizer, se era muito dinheiro. Ele riu e disse que era ouro tipo de dívida, mas que ele iria pagar. Só ontem é que...

Sim, ontem “Tambor”, ao que tudo indicava, ia pagar a dívida. Nem que tivesse que morrer.

- Você poderia nos levar até esta casa? – perguntou Fontana.

A pergunta a assustou; ou, talvez, não quisesse transpor, indo até a tal casa, uma linha de segurança e assim ver, talvez, desmoronar a imagem que tinha de “Tambor.

- Ou então – emendou Gomes, compreensivo – Dizer como podemos ir até lá.

Elisa explicou o caminho com detalhes e também as características da casa. Gomes anotou tudo, levantou-se e, antes de sair, pediu à atendente:

- Sirva um café a ela– e para Elisa – Espere aqui.

 

- Lembra do que eu disse? Isso aí é queima de arquivo. – Fontana andava olhando para um lado e outro, embora os transeuntes os ignorassem. Cuidavam de suas vidas, que já eram difíceis demais. – A gente está é perdendo tempo aqui.

De repente, Gomes parou. Deu meia volta e ficou observando os dois lados da rua.

- O que foi, chefia? – perguntou Fontana.

- As câmaras... Ali, sobre a entrada da farmácia – apontou para a farmácia uns vinte metros acima da calçada onde estavam – e ali, do outro lado da rua, na mercearia e mais adiante no depósito de bebidas ao lado da padaria. Pois então. Olhando o local onde “Tambor” morreu e fazendo uma triangulação bem superficial, é possível que essas câmaras tenham registrado o crime.

- É verdade...

- Vá e peça acesso às imagens das câmeras. Se não quiserem entregar, ligue para o DHPP para requerer o mandado de apreensão e busca judicial.

Gomes seguiu enquanto Fontana, distintivo na mão, entrava na farmácia. No resto do caminho, sentiu-se aliviado por ter notado as câmaras. Não estava, por agora, preocupado sobre se, de fato, elas haviam registrado o crime ou a identidade do assassino. Isso depois se veria.

Depois de uns dois minutos chegou à casa. O portão de ferro pintado de cinza claro com um desenho da bandeira do estado de São Paulo, não deixava errar. Apertou o botão de um interfone velho e desbotado, mas que funcionava, porque ouviu o sinal de chamada. Logo, uns passos arrastados se aproximaram e a voz de um homem perguntou:

- É você, Xavier?

- Não. Aqui é a polícia. Inspetor Godofredo Gomes. Posso entrar?

Era sempre um momento difícil. Entrar na casa de estranhos. Mergulhar em um mundo desconhecido. Encarar rostos ora assustados, ora hostis. Com o distintivo na mão, ele o abanava, sem propósito, agarrando-se à única coisa familiar e segura.

O portão se abriu. O homem tinha uns setenta anos, cabelos brancos e um rosto largo e simpático. Gomes logo mostrou o distintivo.

- O senhor desculpe... é que estava esperando por Xavier. Ele vinha com o táxi buscar..., mas entre, por favor.

A casa era térrea e, na parte da frente, tinha um pátio estreito e cimentado, com algumas plantas acanhadas. O homem guiou Gomes até a sala de estar; uma mesa de refeições à direita, um sofá e cadeiras à esquerda, uma televisão afixada na parede em frente ao sofá. Simples, mas funcional. Sentado em uma das cadeiras da mesa, estava um homem de uns vinte e tantos anos, magro, olhos grandes e assustados, cabeça raspada. Ao lado dele, uma mala grande, que parecia pesada. Uma mala que indicava que alguém ia viajar.

- Como eu disse ao senhor, pensei que era o táxi, porque... – disse o homem que atendera à porta – Esse é meu filho, Antonio. O senhor desculpe, nem me apresentei. Sou o Edval. Edval Almeida de Melo. – Gomes cumprimentou o rapaz com um aceno de cabeça. O pai prosseguiu – Em que podemos ajudar o senhor, inspetor?

Uma mulher de uns sessenta anos apareceu no final do corredor comprido e estreito que ligava a sala aos fundos da residência. Veio andando lentamente até ficar ao lado de Antonio, que ficou nervoso com sua chegada. A mulher, de compleição robusta, tinha um rosto duro e olhos sérios. Os cabelos grisalhos e malcuidados sugeriam pouca vaidade. Mas a expressão do rosto, a linguagem sólida do corpo, denotavam firmeza e decisão.

- O que o senhor deseja? – perguntou a mulher em tom nada amistoso.

- A senhora é...? – a pergunta de Gomes soou como alguém na rua perguntando as horas a um estranho.

- Luzia. Sou esposa dele – olhou de soslaio para Edval – e mãe dele – completou, pondo uma das mãos no ombro do rapaz, que se encolheu.

- Mas... novamente... em que podemos ajudar o senhor? – insistiu Edval, agora em um tom mais nervoso.

- Um homem foi assassinado ontem à noite perto daqui. O nome dele era Joelson Cunha, conhecido como “Tambor” – deixou a informação se espalhar pela sala como uma fumaça acre e densa. – Vocês o conheciam?

Tudo ao redor ensombreceu e as pessoas se tornaram vultos indistintos, encerrados em sua própria neblina. Edval respirava com dificuldade, Luzia não parecia mais feita de carne e sim de pedra. E Antonio não sabia para onde olhar.

- Acho que sei de quem o senhor está falando. – Edval quebrou o silêncio, tentando infundir calma na voz – Era um mal elemento. A gente não tinha contato com ele. Não me surpreende que tenha sido morto.

- Entendo – Gomes se voltou para Luzia – a senhora o conhecia?

- É como Edval disse. Conhecer, conhecia pela fama ruim. Só isso.

- E você, Antonio, conhecia “Tambor”?

O rapaz se encolheu na cadeira e apoiou as mãos trêmulas sobre a mesa.

- Eu... conheci ele, sim. Quero dizer, de vista. Eu... quero dizer, ele sempre andava com o pessoal da minha idade. Por aqui quase todo mundo se conhece.

- Você, no entanto, o conhecia melhor. Falo isso por conta do assalto no posto de gasolina nos Jardins.

- Inspetor, me desculpe, mas... – Vidal se interrompeu, sem ter a mínima ideia do que queria dizer.

- Isso são águas passadas. Antonio é trabalhador. Ajuda a gente no açougue. Trabalha de segunda a sábado, de manhã até a noite. – Cortou Luzia.

Gomes ignorou as interrupções e manteve o olhar fixo em Antonio.

- O que você fez com o dinheiro?

- Dinheiro? Não sei de dinheiro nenhum. Eu...

Ouviu-se uma buzina. Edval disse que devia ser o táxi.

- Quem vai viajar? Você, Antonio? – Gomes olhava para a mala.

Edval foi atender à porta.

- Diga que espere. – Avisou Gomes.

Edval, depois de outra buzinada, saiu avisando:

- Já vai!

- Acho que se abrisse essa mala, encontraria dinheiro. Talvez uns dez mil reais.

Antonio não disse nada. Olhava Luzia, esperando ajuda.

- O senhor é bom em afirmar coisas. Vá em frente, abra a mala. E se encontrar dez mil reais, pode prender nós todos. Até o motorista do táxi.

Luzia deslizava pela ironia e a manejava feito faca afiada.

- Não vou abrir a mala, dona Luzia. Já ouviu falar de mandado de busca e apreensão? – Luzia encolheu os ombros, vitoriosa. – Então... se fizesse isso... seria ilegal. Mas posso fazer suposições. E levando em conta que Antonio foi preso por um assalto ao lado de “Tambor’ – Luzia tentou interromper, mas Gomes ergueu a mão, contendo-a – e que ‘Tambor’ se sentia culpado pelo que aconteceu e queria recompensá-lo pelos anos na cadeia e tendo em vista que ‘Tambor” reuniu dinheiro para dar a Antonio, como compensação e que veio até aqui, ontem à noite, para entrega-lo, posso imaginar que...

Antonio saltou da cadeira.

- O senhor está errado. ‘Tambor’ não veio aqui, nem ontem nem nunca. Ele sabia...

- Antonio! – a voz de Luzia era fria, controlada, ameaçadora.

- Ele sabia o quê? – insistiu Gomes, em tom pacífico.

De repente, um peso imensurável saíra de cima do rapaz, que agora reagia, participava da cena.

- ‘Tambor’ nunca viria aqui. Meus pais... ele sabia o quanto eles não gostavam dele. Culpavam ele por eu ter sido preso. Não, ele não veio aqui.

- Mas entregou o dinheiro mesmo assim, não foi?

Edval entrou, acompanhado pelo motorista. Gomes fez um sinal para ele esperar no portão.

- Eu não matei ‘Tambor’. – Gemeu Antonio, sem responder – Eu nunca matei ninguém. Fiz besteiras na vida, mas não sou assassino...

- No entanto, ele está morto. – Completou Gomes, em um tom quase indiferente.

- Acho melhor que você não responda mais nada. – disse Luzia, fuzilando o filho com um olhar de reprovação – Se o policial aí quer prender você, acusar você de um crime que você não cometeu, então o melhor é chamar um advogado. – Voltou-se para o atarantado Edval e ordenou – ligue para o Dr. Euzébio, o advogado do açougue. Peça a ele para vir até aqui agora mesmo.

Edval vacilava, assustado. Gomes comentou:

- Um advogado, nestes casos, é sempre uma boa ideia.

Edval, mãos trêmulas, pegou o celular e fez a chamada. Agora o caminho se estreitava em um beco, onde em um espaço sufocante, investigações se arrastariam, interrogatórios gastariam horas e horas. Mas Gomes sabia que a resposta estava ali. Aquela casa podia não ser o cenário em que ‘Tambor’ perdera a vida, mas aqueles eram os atores do drama, um deles dera o golpe fatal.

Então, Gomes lembrou. As câmeras.

- Bem, vou aguardar o advogado. Embora esse não seja um caso difícil. Esqueci de dizer que, no local do crime, existem câmeras de segurança que registraram o assassino. Basta ver as filmagens e pronto.

Um frêmito de angústia se espalhou pela sala. Edval informou, apressado, que o advogado morava perto e estava chegando. Gomes não prestou atenção, mas a palidez no rosto de Luzia era um novo item naquele jogo de idas e vindas.

O advogado chegou; um homem de meia idade, baixo, com aspecto cansado, tanto quanto o terno que usava. Gomes fez um resumo do caso. Quando ouviu sobre as câmeras, o advogado sorriu, aliviado.

- Esta é uma das vantagens da tecnologia, não? – comentou com ar tranquilo.

Na rua, o táxi voltou a buzinar. Gomes sugeriu que o motorista fosse liberado. Não seria possível viajar, não agora, não hoje. O advogado concordou.

- Bem, inspetor, garanto que meus clientes, gente decente, estão prontos a colaborar com a polícia.

- Agradeço.

- Ademais, com as câmeras, tudo será resolvido e ficará provado que...

Luzia deu um passo à frente e parou diante de Gomes, interpondo-se entre ele e o filho aferrado na cadeira.

- Aprendi nesta vida a não perder tempo. É o seguinte: eu matei o desgraçado. – Estendeu as mãos grossas, rudes – Com estas mãos. Meu filho não cometeu este crime. Se é que se pode chamar isso de crime.

- Dona Luzia, por favor... – o advogado reagiu, segurando-a pelo braço.

- Vamos deixar de tolices, Euzébio. As câmeras vão mostrar a hora em que enfiei a faca naquele marginal. Bem no coração, não foi? – Gomes assentiu – Os anos de trabalho no açougue me ensinaram alguma coisa...

Antônio estava de pé, horrorizado. Depois de tantas misérias na vida, o rapaz não sabia mais como reagir. Olhava a mãe sem crer no que ouvira. Aos poucos, lentamente, voltou a sentar e escondeu a cabeça entre as mãos.

- Eles se encontraram em um bar. Desconfiei quando Antonio disse que ia sair. Edval estava dormindo. Perguntei o que ia fazer na rua àquela hora e ele disse que não ia demorar. Fechei a casa e segui ele. Vi quando sentaram na mesa e o miserável deu um envelope a Antonio. Só podia ser coisa errada. Então o desgraçado foi embora. Antonio ficou lá, bebendo e olhando para o envelope com cara de tonto. Não era possível que todo aquele sofrimento fosse voltar, a prisão, as visitas... a vergonha...

- Então, a senhora...

- Segui o vagabundo. Parecia feliz. Pensei comigo: deve ter armado outro golpe para meter meu filho em cana. Não. De jeito nenhum. Ele nem viu quando me aproximei. A rua estava deserta. Por conta da bandidagem, ninguém circula aquelas horas. Foi rápido. Um golpe só. Ele nem gemeu. Deu uns passos para frente e caiu estatelado. Voltei para casa. Antonio ainda não tinha voltado. Meu filho, desta vez, estava salvo.

O advogado enxugava a testa com um lenço. Edval, da porta, ouvia tudo, a boca aberta. O táxi arrancou, desistindo da viagem.

- Peço a senhora que me acompanhe até o DHPP. Temos que tomar suas declarações por escrito. – Esclareceu Gomes, voltando-se para o advogado. – O doutor, por certo, vai conosco, não?

O advogado assentiu. Luzia disse a Edval que fosse abrir o açougue. Já eram quase nove horas e os clientes deviam estar esperando. Antonio se levantou e perguntou:

- E o dinheiro? São quinze mil reais. Se o senhor quiser...

- Não é crime receber dinheiro. Pode ficar com ele. Acho que será útil agora. – aconselhou Gomes.

O cenário se desfez. Um ponto final rápido e cirúrgico. Luzia e o advogado saíram para a rua. Fontana estava no portão.

- Vá buscar a viatura – pediu Gomes – Conduza esta senhora ao DHPP e o advogado também. Vou ficar mais um pouco.

Fontana, sem saber o que se passara, arrastou Gomes para mais longe dos outros e disse, baixinho:

- Sabe as câmeras? Pois então. Não vão servir para nada. Estão quebradas faz tempo.

Antes que Gomes pudesse dizer algo, Luzia se aproximou.

- O senhor já ouviu falar de amor de mãe, policial?

- Quem nunca ouviu?

-Então o senhor sabe do que uma mãe é capaz. Sem firulas, sem remorso. E quer saber mais? Nunca me senti tão bem como agora.

 

A viatura seguiu levando Luzia, o advogado e Antonio. Gomes voltou a passos lentos para o café. Elisa não estava lá. Sobre a mesa, as xícaras vazias e os guardanapos de papel que ela usara para enxugar as lágrimas. Ao vê-lo, a garçonete disse:

- A moça foi embora depois que o senhor saiu. Coitada! Tava com uma cara... o senhor acredita que ela ainda estava chorando?

Gomes tinha certeza que sim. A felicidade abatida por uma facada certeira. O futuro apagado. A vida nova na ensolarada Paraíba um borrão tristonho.

E na calçada, morto, um homem chamado ‘Tambor’ que até o fim acreditou que tudo poderia ser diferente.

alexandre gazineo
Enviado por alexandre gazineo em 30/10/2025


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