Textos


Na aldeia de Karzak vivia Bezim um menino de oito anos. Era filho de um carpinteiro e de uma lavadeira, e viviam em uma pobre choupana nos arredores da povoação. Bezim tinha mais quatro irmãos mais velhos, e que ajudavam os pais em serviços nas casas dos senhores da tribo. Bezim vivia praticamente só, sem a atenção dos pais e sem a companhia dos irmãos. Certo dia, uma rica senhora, que contratava os serviços da mãe de Bezim, encantou-se ao conhecê-lo. Disse nunca ter visto olhar tão sensível e inteligente em uma criança e perguntou à Bezim quais eram suas brincadeiras favoritas. O menino, muito envergonhado, respondeu com um filete de voz e com os olhos fixos no piso de mármore rosa do átrio da luxuosa residência. 'Desenhar.'. A senhora chamou uma criada e ordenou-lhe que trouxesse um estojo de madeira que estava no quarto do seu filho mais velho, agora já quase adulto. Quando a criada retornou, a dama, para encanto desmedido de Bazim e humilde constrangimento de sua mãe, abriu a tampa de madeira folheada com lâminas de prata, e revelou aos deliciados olhos do menino dezenas de resmas de delicados papeis de desenho, lápis de cor, réguas de vários tamanhos e modelos em argila de animais, flores e frutas. 'É seu, Bazim' – disse a dama, acariciando os cabelos negros e encaracolados do garoto. Bazim e sua mãe se despediram com muitos votos de gratidão. Durante a longa caminhada até em casa, Bazim carregou o estojo com ansiosa alegria, embora o peso do fabuloso presente o fizesse, vez por outra, tropeçar nas pedras irregulares do caminho. Mas nem estes contratempos apagaram do seu rosto o riso de alegria que parecia para sempre afixado em seus lábios. No dia seguinte Bazim, desde as primeiras horas da manhã, dedicou-se a fazer o que mais gostava: desenhar. Com alguns papeis debaixo do braço e os lápis coloridos na mão, vagueou até as colinas próximas e lá passou todo o dia, até o pôr do sol, desenhando pássaros, um rebanho de ovelhas, um lavrador a plantar milho, um carro de boi carregado de feno, um cavalo que pastava altivo e solitário. À noite, deitado em sua enxerga a um canto da cabana, não conseguia dormir, excitado. Ansiava rever os desenhos que fizera. Então, levantou-se com cuidado para não despertar a família, acendeu uma vela e retirou os desenhos do estojo. Qual não foi sua surpresa ao ver que os desenhos haviam se alterado. Agora, o camponês colhia as primeiras espigas do milho posto sob a terra horas antes, o cavalo tinha ao seu lado a companhia de uma bela égua de pelo marrom e os pássaros trinavam – embora ninguém da família adormecida os escutasse – enchendo o ar abafado da cabana com sons delicados e doces. Pela manhã, Bazim – que não dormira durante o resto da noite – contou a notável experiência aos pais. Jeteh, seu pai, homem gentil e bondoso, mas pouco afeito aos mimos da infância, fez uma careta de descrédito e abanou a mão para o filho caçula, como se o aconselhando a deixar de tolices. Sua mãe o ouviu em silêncio, beijou-lhe o rosto magro duas vezes, mostrou onde deixara a comida – no mesmo lugar de sempre, uma códea de pão e um jarro de leite – e saiu para o trabalho. E durante aquele dia e nos dias que se sucederam os desenhos de Bazim, cada vez mais perfeitos, ganhavam, independentemente de sua vontade, uma vida própria que ele não sabia de onde vinha. Então uma grande catástrofe se abateu sobre a aldeia. Uma estiagem jamais vista fez minguar as águas dos rios e córregos, destruiu os pastos, matou dezenas de animais, arruinou as colheitas. Por todo lugar, ouviam-se as lamúrias dos mais desaventurados consumidos pela sede, pela fome e pelas doenças. Até mesmo os mais abastados sofreram e a própria dama que presenteara Bazim adoeceu gravemente. Os dias e semanas se arrastavam sob o sol escaldante e o ar seco. O próprio rei Zurah II, que nunca viera à aldeia, certo dia apareceu, escoltado por soldados e sacerdotes em imponentes túnicas brancas, para rogar aos Deuses do Tempo ajuda para a infeliz povoação. De nada adiantou. A seca persistiu e a miséria se alastrou, impiedosa. Apesar de toda tristeza à sua volta, Bazim não desistiu de desenhar. Um dia rumou com suas últimas folhas de papel até a planície esturricada e fitou o céu implacável com seus olhinhos apertados. Pensou, entristecido: O que vou desenhar? Diante de tanta desolação, o que posso desenhar? Não há mais pássaros, nem plantas, nem animais... Foi então que uma idéia lhe ocorreu. Nuvens! Vou desenhar nuvens! E fitando o firmamento de um azul tenebroso, desenhou enormes nuvens, brancas como as vestes dos sacerdotes, densas como imensos rolos de algodão. Desenhou também nuvens cinzentas e negras, carregadas de uma promessa iminente de chuva, talvez mesmo de estrondosos temporais. E assim desenhou até o sol escaldante se perder no horizonte e ele, cansado e faminto, voltar para casa. Na manhã seguinte, a aldeia despertou sob uma chuvarada incessante. Os trovões confirmavam o ímpeto da tempestade e lá pelo fim da manhã os rios já estavam quase cheios, os pastos floresciam em um verde renovado e os pássaros, desde muito ausentes, trinavam seu contentamento pelos quatro cantos. Os pais de Bazim, ajoelhados diante de casa, banhavam-se feito crianças sob o benfazejo aguaceiro e agradeciam aos Deuses do Tempo a piedade que demonstravam pela aldeia e seu povo. Enquanto isto, Bazim olhava seus desenhos, nos quais as nuvens que desenhara agora também despejavam suas águas redentoras, o brilho dos relâmpagos incendiando, vivazes, o branco do papel. Contemplou os pais e o povo que passava correndo, em animada procissão, diante da sua choupana. E sorriu. Guardava, a partir daquele dia um segredo que não dividiria com ninguém. O segredo dos seus desenhos. Que ele também não sabia explicar. O segredo da sua criação. Que ele nem de longe podia compreender. E o maior segredo de todos: ele, o pequeno Bazim, era mais que um Deus do Tempo. Era o Deus de Todas as Coisas. - Na aldeia de Karzak vivia Bezim um menino de oito anos. Era filho de um carpinteiro e de uma lavadeira, e viviam em uma pobre choupana nos arredores da povoação. Bezim tinha mais quatro irmãos mais velhos, e que ajudavam os pais em serviços nas casas dos senhores da tribo. Bezim vivia praticamente só, sem a atenção dos pais e sem a companhia dos irmãos. Certo dia, uma rica senhora, que contratava os serviços da mãe de Bezim, encantou-se ao conhecê-lo. Disse nunca ter visto olhar tão sensível e inteligente em uma criança e perguntou à Bezim quais eram suas brincadeiras favoritas. O menino, muito envergonhado, respondeu com um filete de voz e com os olhos fixos no piso de mármore rosa do átrio da luxuosa residência. 'Desenhar.'. A senhora chamou uma criada e ordenou-lhe que trouxesse um estojo de madeira que estava no quarto do seu filho mais velho, agora já quase adulto. Quando a criada retornou, a dama, para encanto desmedido de Bazim e humilde constrangimento de sua mãe, abriu a tampa de madeira folheada com lâminas de prata, e revelou aos deliciados olhos do menino dezenas de resmas de delicados papeis de desenho, lápis de cor, réguas de vários tamanhos e modelos em argila de animais, flores e frutas. 'É seu, Bazim' – disse a dama, acariciando os cabelos negros e encaracolados do garoto. Bazim e sua mãe se despediram com muitos votos de gratidão. Durante a longa caminhada até em casa, Bazim carregou o estojo com ansiosa alegria, embora o peso do fabuloso presente o fizesse, vez por outra, tropeçar nas pedras irregulares do caminho. Mas nem estes contratempos apagaram do seu rosto o riso de alegria que parecia para sempre afixado em seus lábios. No dia seguinte Bazim, desde as primeiras horas da manhã, dedicou-se a fazer o que mais gostava: desenhar. Com alguns papeis debaixo do braço e os lápis coloridos na mão, vagueou até as colinas próximas e lá passou todo o dia, até o pôr do sol, desenhando pássaros, um rebanho de ovelhas, um lavrador a plantar milho, um carro de boi carregado de feno, um cavalo que pastava altivo e solitário. À noite, deitado em sua enxerga a um canto da cabana, não conseguia dormir, excitado. Ansiava rever os desenhos que fizera. Então, levantou-se com cuidado para não despertar a família, acendeu uma vela e retirou os desenhos do estojo. Qual não foi sua surpresa ao ver que os desenhos haviam se alterado. Agora, o camponês colhia as primeiras espigas do milho posto sob a terra horas antes, o cavalo tinha ao seu lado a companhia de uma bela égua de pelo marrom e os pássaros trinavam – embora ninguém da família adormecida os escutasse – enchendo o ar abafado da cabana com sons delicados e doces. Pela manhã, Bazim – que não dormira durante o resto da noite – contou a notável experiência aos pais. Jeteh, seu pai, homem gentil e bondoso, mas pouco afeito aos mimos da infância, fez uma careta de descrédito e abanou a mão para o filho caçula, como se o aconselhando a deixar de tolices. Sua mãe o ouviu em silêncio, beijou-lhe o rosto magro duas vezes, mostrou onde deixara a comida – no mesmo lugar de sempre, uma códea de pão e um jarro de leite – e saiu para o trabalho. E durante aquele dia e nos dias que se sucederam os desenhos de Bazim, cada vez mais perfeitos, ganhavam, independentemente de sua vontade, uma vida própria que ele não sabia de onde vinha. Então uma grande catástrofe se abateu sobre a aldeia. Uma estiagem jamais vista fez minguar as águas dos rios e córregos, destruiu os pastos, matou dezenas de animais, arruinou as colheitas. Por todo lugar, ouviam-se as lamúrias dos mais desaventurados consumidos pela sede, pela fome e pelas doenças. Até mesmo os mais abastados sofreram e a própria dama que presenteara Bazim adoeceu gravemente. Os dias e semanas se arrastavam sob o sol escaldante e o ar seco. O próprio rei Zurah II, que nunca viera à aldeia, certo dia apareceu, escoltado por soldados e sacerdotes em imponentes túnicas brancas, para rogar aos Deuses do Tempo ajuda para a infeliz povoação. De nada adiantou. A seca persistiu e a miséria se alastrou, impiedosa. Apesar de toda tristeza à sua volta, Bazim não desistiu de desenhar. Um dia rumou com suas últimas folhas de papel até a planície esturricada e fitou o céu implacável com seus olhinhos apertados. Pensou, entristecido: O que vou desenhar? Diante de tanta desolação, o que posso desenhar? Não há mais pássaros, nem plantas, nem animais... Foi então que uma idéia lhe ocorreu. Nuvens! Vou desenhar nuvens! E fitando o firmamento de um azul tenebroso, desenhou enormes nuvens, brancas como as vestes dos sacerdotes, densas como imensos rolos de algodão. Desenhou também nuvens cinzentas e negras, carregadas de uma promessa iminente de chuva, talvez mesmo de estrondosos temporais. E assim desenhou até o sol escaldante se perder no horizonte e ele, cansado e faminto, voltar para casa. Na manhã seguinte, a aldeia despertou sob uma chuvarada incessante. Os trovões confirmavam o ímpeto da tempestade e lá pelo fim da manhã os rios já estavam quase cheios, os pastos floresciam em um verde renovado e os pássaros, desde muito ausentes, trinavam seu contentamento pelos quatro cantos. Os pais de Bazim, ajoelhados diante de casa, banhavam-se feito crianças sob o benfazejo aguaceiro e agradeciam aos Deuses do Tempo a piedade que demonstravam pela aldeia e seu povo. Enquanto isto, Bazim olhava seus desenhos, nos quais as nuvens que desenhara agora também despejavam suas águas redentoras, o brilho dos relâmpagos incendiando, vivazes, o branco do papel. Contemplou os pais e o povo que passava correndo, em animada procissão, diante da sua choupana. E sorriu. Guardava, a partir daquele dia um segredo que não dividiria com ninguém. O segredo dos seus desenhos. Que ele também não sabia explicar. O segredo da sua criação. Que ele nem de longe podia compreender. E o maior segredo de todos: ele, o pequeno Bazim, era mais que um Deus do Tempo. Era o Deus de Todas as Coisas. -
alexandre gazineo
Enviado por alexandre gazineo em 13/11/2014
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