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‘Pai, você tem que ajudar!’
Gomes ergueu os olhos do jornal surpreso com a excitação de Renata. Ela parecia andar sobre brasas e torcia e retorcia as mãos como se quisesse soltá-las dos pulsos. Parada na soleira da porta do apartamento enviava desesperados olhares de socorro para ele, comodamente sentado na poltrona da sala, naquela fresca manhã de sábado.
‘O que foi?’ – perguntou, sem fechar o jornal, esperando que o pedido de ajuda fosse tão simples que não precisasse fazê-lo abandonar a leitura sobre a imigração em São Paulo.
Saindo da cozinha, Helena perguntou:
‘O que foi menina? Parece que viu um fantasma!’.
‘Mãe, eu não acredito em fantasma!’ – Voltando-se para Gomes disse apressadamente – ‘Alguém roubou a gata da Sandrinha. A coitadinha não para de chorar! Ajuda a gente a achar a Bibi. ’.
Desta vez ele fechou o jornal. A questão ia render e muito. Sandrinha era uma garota de três anos e Renata – quando os pais saíam à noite nos fins de semana – tomava conta dela. Ela mesma dizia orgulhosa às amigas no telefone, quando desmarcava um cinema ou uma festa: hoje não posso. Tô de baby-sitter da Sandrinha. Mesmo pressentindo a inevitabilidade da sua participação no caso, ele tentou:
‘Nunca procurei gatos desaparecidos. ’.
‘Pai, você já descobriu coisa pior! Uma gata sumida é moleza!’. A súbita alegria de Renata acabou por convencê-lo de que aquela era uma missão irrecusável.
Desceram o elevador e no saguão, Gomes viu alguns garotos e garotas do prédio discutindo o que acontecera. Sandrinha arrastava uma boneca de um lado para o outro, seguida pela babá, uma moça com cara de índia. Seus olhinhos verdes estavam raiados de vermelho pelo choro insistente. Uma menina gorda e com os cabelos pintados de laranja aproximou-se de Renata.
‘A Bibi sumiu. Os meninos olharam na garagem e nas escadas. Nem sinal!’. Ouvindo o nome da gata, Sandrinha largou a boneca e voltou a chorar. A babá, carinhosamente, a levantou nos braços, consolando-a.
‘O que aconteceu com a gata?’ – perguntou Gomes à babá.
‘A gente desceu para brincar e Sandrinha pediu para trazer a Bibi. Dona Lúcia, a mãe dela, nunca deixa, mas hoje ela não estava em casa e seu Roberto, o pai dela, deixou. ’. Um caso delicado. De um lado, uma mãe desautorizada. De outro, um pai liberal e, de certo modo, responsável pela tragédia com a Bibi. E, no meio de tudo, uma babá tentando provar sua  inocência.
‘E então?’ – insistiu Gomes. A babá explicou que enquanto passeava com Sandrinha pelo playground, Bibi sumira. Ela pediu ajuda a Renata que estava por perto conversando com uns amigos. Não sabia o que acontecera com Bibi, mas tinha certeza que ela não estava mais no prédio.
‘Alguém roubou a bichinha!’. – concluiu com segurança.
Gomes atravessou o saguão. Pedrão, o porteiro, arrumava a correspondência e quando o viu comentou, com um riso triste:
‘Até o senhor tá procurando a Bibi?’ – Gomes assentiu – ‘Pois é... Eu vi a gatinha, sim. Mas ela sumiu de repente. O portão tava fechado. E também não dava pra ela escapulir pelo gradeado porque é bem estreito. O senhor quer meu palpite?’ – Gomes assentiu de novo e Pedrão falou irritado – ‘Alguém aqui do prédio pegou a gata!’.
Aquela era uma acusação séria. E para Gomes, muito prematura.
‘Ninguém estranho entrou no prédio?’ Pedrão piscou os olhos, deixou as cartas de lado e depois de instantes de concentração, disse:
‘Só um rapaz que de vez em quando aparece aqui. Renata sabe quem é. Ele mora em um prédio na Rua Jaguaribe. O nome dele é... ’.
‘Elmo?’ – perguntou Renata às costas de Gomes. Pedrão confirmou. Renata deu de ombros e comentou incerta:
‘Por que o Elmo iria roubar a Bibi? Ele é tão... Estranho... Parece distante de tudo. ’.
‘O que ele estava fazendo aqui?’ – perguntou Gomes a Pedrão.
‘Disse que queria falar com Roque, que mora no oitavo, mas Roque viajou com os pais. Então, ele ficou um tempo sem fazer nada e foi embora. Nem vi a hora que ele saiu porque eu tava atendendo o pessoal do gás. ’.
‘E quando ele estava aqui, a menina e a gata estavam no playground?’.
‘Bem... Ele teve aqui duas vezes hoje. Na primeira ele ficou na calçada, olhando com cara de besta’ – Renata deu um riso breve, mas desistiu quando o pai a fitou reclamando a seriedade que o caso exigia -‘Deu uns quinze minutos e ele voltou e pediu para falar com o Roque. Mas nas duas vezes a menina e a gata já estavam no playground, sim. ’. – concluiu Pedrão, seguro da informação, porteiro exemplar.
Gomes deu nova volta pelo playground, remoendo. Com a boneca nas mãos e os olhinhos ainda vermelhos de chorar, Sandrinha observava curiosa o rebuliço. Parecia esperar – naquela agitação infantil – que Bibi aparecesse de repente, miando e se enroscando em seu colo. E então tudo estaria bem, a vida voltaria aos trilhos. Crianças. Gomes acariciou levemente seus cachinhos castanhos enquanto voltava á portaria.
‘Pedrão, tente lembrar. Elmo esteve aqui duas vezes, certo?’ – Pedrão assentiu sem vacilar – ‘Muito bem! Eu quero que você lembre se notou algo diferente entre a primeira vez que ele apareceu e a segunda, quando ele entrou no prédio. Qualquer coisa’.
‘Deixa ver... Bem... Não sei se importa, mas... Na segunda vez, ele trouxe uma mochila, sabe? Do tipo de levar nas costas?’. Gomes sorriu. Importava sim. Acenou para Renata, chamando-a.
‘Vamos visitar seu amigo Elmo. ’. Subiram a Rua Fortunato e depois a Jaguaribe em direção ao prédio onde morava Elmo.
‘O senhor acha que o Elmo pegou a Bibi? Ele é meio esquisito, mas não faria uma maldade desta com a Sandrinha. ’.
‘Em uma investigação, filha, qualquer detalhe, por menor que seja e que altere a harmonia e, principalmente, a lógica do quadro, não pode ser desprezado. ’.
‘O Elmo é este ‘detalhe’?’ – perguntou Renata, agora toda atenção.
‘Não exatamente. Mas sim o que ele fez. Ele esteve no prédio duas vezes. Mas não com a mesma atitude. Entende? Ele tem um amigo que mora em nosso prédio, não?’.
‘O Roque. Eles são muito amigos. Do tipo inseparáveis. ’.
‘Ele voltou ao prédio procurando por ele. Já que são inseparáveis ele devia saber que Roque está viajando. Somado a isto, por que, ao voltar, ele trouxe uma mochila?’.
‘Para roubar a Bibi?’ – sugeriu Renata ansiosa.
Gomes sorriu e tentou explicar.
‘Em uma investigação duas situações podem ocorrer: diversas pistas a seguir e então o trabalho se parece com achar uma trilha para fora de uma floresta densa; mas também pode ser que só uma pista surja de forma clara. Então este dado deve ser analisado, por mais absurdo que pareça. ’ – ele encolheu os ombros – ‘É o que está acontecendo agora. Pode ser que estejamos perdendo tempo. Mas não temos escolha. ’ - Renata concordou com a cabeça, os olhos baixos, a expressão contraída – ‘Você é amiga dele?’ – perguntou Gomes, tentando soar desinteressado.
‘AH! Ele é um cara legal. Estuda no meu colégio. É bom aluno. Não gosta de conversar, nem de andar com turma. Mas eu gosto dele, sim. ’.
Gomes olhou-a de soslaio. A expressão tensa continuava em seu rosto delicado e bonito. Era sempre assim. Quando algo errado acontecia, quando o tênue equilíbrio era quebrado por um ato de violência ou de mera irreflexão, ninguém gosta de pensar que o responsável seja alguém próximo. Esperamos, sempre, que os grandes crimes e até os pequenos erros sejam praticados por estranhos. Este distanciamento nos faz sentir ilusoriamente mais seguros. Ele segurou a mão de Renata e a sentiu úmida e fria.
‘Onde Elmo mora? – perguntou. Ela apontou para um prédio a uns cem metros de onde estavam.
Ele apressou o passo e ela o acompanhou.
                                             * * * * * * * *
O rapaz que abriu a porta do apartamento era uma boa síntese da adolescência. Ou, ao menos, de uma boa parte dos seus representantes. Era magro, alto, pescoço fino e quebradiço, um pomo de adão protuberante que dava a incomoda impressão de que ele estava engasgado com uma bola de ping-pong, um rosto que não era bonito, mas exalava uma timidez inteligente e uma atitude de alerta desconfiança. Ele sorriu meio sem graça.
‘Oi, Renata. ’
‘Oi, Elmo. ’ – Renata suspirou indecisa sobre o que dizer. Gomes ia falar quando Elmo, de forma casual, disse:
‘Você tá procurando a gata?’. Renata estremeceu. Chegou mesmo a recuar um passo, desconcertada. Elmo afastou-se da porta, convidando-os a entrar. Depois de fechar a porta, ele disse:
‘Minha avó está muito doente. Câncer. Os médicos dizem que não há mais nada a fazer. ’ – ele ergueu os olhos, mas não haviam lágrimas. Só o brilho de uma decisão contra a qual não cabia remorso – ‘Ela tem tido delírios. Por causa da morfina. Desde ontem ela fala de uma gata preta e branca com quem ela brincava quando criança. Queria brincar com a gata de novo. Mas... ’ – ele olhou na direção do corredor onde uma mulher magra e ressecada, com a face abatida, olhava-os em silêncio. Pela semelhança com Elmo, Gomes concluiu que era sua a mãe – ‘Então quando eu vi a gatinha hoje... Não pensei em nada... Só queria que minha vó ficasse alegre... ’.
De um quarto no fundo do corredor um miado arrastado e lento deslizou até a sala. Depois, um riso rouco e frágil e a voz de mulher a repetir; minha pequena, você voltou. Você voltou. A mãe de Elmo veio até eles e passou o braço ao redor dos ombros do filho enquanto Renata estendia-lhe a mão.
‘Tá tudo bem, Elmo. ’.
‘Eu vou pegar a Bibi... ’ – disse ele. Gomes interpôs-se em seu caminho.
‘Não é preciso. A Bibi está bem. Além do mais, ela está fazendo algo que nem você, nem sua mãe e nem todos os médicos do mundo podem fazer. Está tudo bem, Elmo. ’.
'Daqui a pouco, então, eu levo a Bibi.' - disse Elmo, com um sorriso.
Doquarto um novo miado se ouviu seguido do que pareceu um ronronar de aprovação.
 
alexandre gazineo
Enviado por alexandre gazineo em 05/05/2010
Alterado em 27/05/2014
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