Meu Diário
01/01/2015 12h30
O Homem Fragmentado

Em 2014 li com atenção redobrada o livro 'O Homem Fragmentado' de Tibor Moritz que seria um romance de ficção científica, embora, pessoalmente, sempre fui avesso a esta tendência de circunscrever uma obra - qualquer que seja ela - a um certo gênero ou estilo dentre dos canônes classificatórios.



Mas o livro de Moritz é assim classificado e isto me despertou uma curiosidade inegável. Isto porque existe uma certeza sacrossanta que no Brasil não se produz obras de ficção científica. Preconceitos à parte, são, de fato, raras as incursões de autores nacionais. E Tibor Moritz - embora o nome nos faça pensar, talvez, em um ex-soviético com uma barbicha a la Tchekov - é um autor brasileiro de verdade.



O 'Homem Fragmentado' conta a história de um bem sucedido escritor de ficção científica brasileiro - nada de 'alter-ego', registre-se - que, ao perder o filho em um acidente do qual ele se culpa, decide por fim à própria existência. Logo, a estória começa com um suicídio do próprio protagonista. Premissa interessante, não há como negar, e cheia de perigos. 



Moritz quebra de logo a nossa primeira certeza. Seria mesmo um suicídio? Ou será que o suicídio que o leitor acabou de ler e testemunhar não seria um delírio compartilhado com o personagem? A continuação da existência do protagonista além da morte e do terrível ato final é que resume, justifica e dá força ao livro.



Não seguirei adiante na trama porque acho que resenha não serve para contar a estória que um autor, laboriosamente, gastou meses, às vezes anos, para completar. Mas adianto que o jogo de imagens e a criatividade de Moritz em criar um paradoxo de encerramento e outro de recomeço foi urdido com delicadeza e bom humor, sem desprezar passagens de puro horror. A discussão vai bem adiante, e é possível ao leitor mais atento pinçar idéias sobre o significado da morte, do vazio existencial que nos consome, máxime quando perdemos alguém que amamos e até mesmo qual o papel desta coisa chamada amor no processo de existência universal.



Neste sentido, 'O Homem Fragmentado' é muito mais que um livro de ficção científica, embora seja inegável perceber, na obra de Moritz, as influências que ele deixa fluir, muito naturalmente, na concepção do seu enredo. Os ecos de autores como Philip K. Dick, Robert Heinlein, Ray Bradbury e Richard Matheson são evidentes. E só fazem enriquecer o livro.



A narrativa flui com bom compasso, alternando quadros muito bem entrelaçados, com destaque para a excelente distopia em que a sociedade vive em um estado totalitário e presa em um engarrafamento. A primeira parte é rotina, mas a segunda é um achado e tanto!



Talvez em certas passagens haja excessivos dialogos interiores do protagonista que, ao descobrir que a morte é, bem, meio diferente do que pensamos, faz a si mesmo perguntas demais. Penso que Moritz quis situar  ao leitor por esta vertente os questionamentos nodais do livro. Mas em uma narrativa tão eletrizante, estes bolsões repetitivos - raros, registre-se - travam a fluência do texto e comprometem sua espontaneidade.



No mais, 'O Homem Fragmentado' é, com certeza, o melhor texto de ficção científica nacional - para agradar os classificadores - que já li. Recomendo fortemente e aguardo pela proxima surpresa de Tibor Moritz.   



Publicado por alexandre gazineo em 01/01/2015 às 12h30
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